Se existisse um capítulo de mangá inspirado no duelo entre Brasil e Japão, ele certamente começaria com um aviso: “Nem todo protagonista desperta seu poder logo no primeiro episódio.”
O Brasil entrou em campo carregando um peso que nenhuma outra seleção conhece. Não era apenas a responsabilidade de disputar uma Copa do Mundo. Era o peso de uma camisa que atravessa gerações, de uma história construída por Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros. Uma camisa que obriga a vencer mesmo quando o futebol ainda não apareceu.
Do outro lado estava um Japão disciplinado, organizado e extremamente intenso.
Era como enfrentar aquele rival dos mangás que nunca desperdiça energia. Cada movimento era calculado. Cada desarme parecia ensaiado. Cada aproximação ao gol brasileiro lembrava uma estratégia desenhada muito antes da batalha começar.
Nos primeiros minutos, ficou evidente que o roteiro não seria confortável.
Casemiro recebeu cartão amarelo logo cedo, aumentando a tensão sobre um jogador que já carregava críticas desde antes da partida. Em outro momento, acabou trombando com Matheus Cunha, simbolizando a falta de sintonia que marcava a equipe.
No meio do primeiro tempo veio uma das cenas mais curiosas da partida.
Bruno Guimarães acertou uma bolada em cheio no rosto de Lucas Paquetá. A bola ainda desviou em Marquinhos, mas parecia amaldiçoada. Simplesmente se recusava a encontrar o caminho das redes.
Enquanto isso, o Brasil insistia em desperdiçar oportunidades.
Perdia bolas perigosas na entrada da área.
Errava passes simples.
Acelerava jogadas sem necessidade.
Parecia um protagonista dominado pela ansiedade antes da grande batalha.
Na beira do gramado, Carlo Ancelotti acompanhava tudo mastigando seu chiclete com intensidade cada vez maior. Cada erro impulsivo dos jogadores parecia aumentar a tensão do treinador. Era como um velho mestre vendo seus discípulos ignorarem todos os ensinamentos recebidos.
Então veio o intervalo.
Se fosse um anime, aquele seria o momento em que os dois exércitos retornam aos seus templos para reorganizar suas estratégias antes do confronto decisivo.
O Japão voltou parecendo ainda mais conectado.
Como se tivesse alinhado seus chakras.
Mais compacto.
Mais agressivo.
Mais confiante.
Até que, pouco antes da meia hora do segundo tempo, o castigo chegou.
Um erro brasileiro no meio-campo ofereceu exatamente o que os japoneses esperavam. A transição foi rápida, objetiva e fatal. O gol premiava uma equipe que pressionava alto desde o início da partida e castigava justamente o maior defeito brasileiro naquela noite: os desperdícios na construção das jogadas.
Era o golpe do antagonista.
Mas toda boa história reserva um momento para o despertar do protagonista.
A entrada de Endrick mudou completamente o ambiente da partida.
O ataque ganhou profundidade.
Vinícius Júnior passou a encontrar espaços.
Bruno Guimarães acelerou a circulação da bola.
O Brasil deixou de apenas tocar e começou, finalmente, a atacar.
Foi quando Casemiro iniciou seu arco de redenção.
Aos 56 minutos, Gabriel Magalhães levantou a bola na área. Casemiro atacou o espaço como um capitão que se recusa a aceitar a derrota. Subiu mais alto que a defesa japonesa e cabeceou firme para empatar a partida.
O volante que iniciou a noite sendo lembrado pelas críticas agora era o responsável por reacender a esperança de milhões de brasileiros.
Como todo protagonista, encontrou força exatamente quando parecia mais vulnerável.
O empate incendiou a Seleção.
Vinícius Júnior acertou a trave.
Zion Suzuki fez grandes defesas.
O Japão continuava resistindo como aqueles antagonistas que insistem em lutar mesmo quando já estão cercados.
Mas havia um último capítulo a ser escrito.
Nos acréscimos, Bruno Guimarães encontrou um espaço impossível para a maioria dos jogadores enxergar.
Seu passe atravessou a defesa japonesa como uma lâmina cortando o vento.
Gabriel Martinelli apareceu nas costas da marcação, dominou com tranquilidade e bateu cruzado. Zion Suzuki ainda tocou na bola, mas não conseguiu impedir o destino.
A rede balançou.
Era o golpe final.
O herói havia vencido.
O Brasil não conquistou essa classificação jogando seu melhor futebol.
Conquistou porque soube sofrer.
Porque ajustou suas peças.
Porque Ancelotti transformou uma equipe nervosa em um time agressivo, paciente e dominante no momento decisivo.
Talvez esse seja o maior ensinamento dessa vitória.
Grandes protagonistas não são aqueles que jamais caem.
São aqueles que encontram forças para levantar quando tudo parece perdido.
No fim, ficou mais uma vez provado que algumas coisas nunca mudam.
A camisa sempre pesa.
A torcida sempre pesa.
E o legado da Seleção Brasileira continua vivo.
Mesmo quando adormecido, ele sempre encontra uma maneira de despertar.
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Fonte: https://spdiario.com.br/noticias/artigos/de-criticado-a-protagonista.html

